Maguila, lenda do
boxe brasileiro, morre aos 66 anos.
Ex-peso-pesado sofria de demência pugilística, consequência das pancadas na cabeça que sofreu ao longo dos 17 anos de carreira; Adilson conquistou títulos brasileiros, Sul-Americanos e o Mundial da WBF.
O Brasil se despede de um dos maiores boxeadores de sua história. José Adilson Rodrigues dos Santos, mais conhecido como Maguila, morreu nesta quinta-feira, dia 24 de outubro de 2024, em São Paulo, aos 66 anos. O principal peso-pesado e uma das direitas mais pesadas do boxe brasileiro sofria de encefalopatia traumática crônica, também conhecida como demência pugilística, diagnosticada em 2013.
- Ele tava, ficou 28 dias internado, e a gente procurou não
falar com a imprensa, porque eu procurei cuidar da minha família. É o momento
de cada um. O Maguila estava há 18 anos com encefalopatia traumática crônica...
Há 30 dias, foi descoberto um nódulo no pulmão, ele sentiu muitas dores no
abdômen, tiraram dois litros de água do pulmão, não conseguimos fazer a biópsia
- relatou Irani.
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| Maguila derrota o americano James "Quebra-Ossos" Smith, em São Paulo — Foto: Arquivo/Agência Estado |
Maguila nasceu no dia 11 de julho de 1958, em Aracaju. Dos
17 anos em que lutou, acumulou um cartel de 85 lutas, 77 vitórias (61 por
nocaute), sete derrotas e um empate técnico. Com seu jeito carismático e suas
entrevistas folclóricas, foi cativando o público. Entre as lutas mais especiais
da carreira, estão os confrontos com nomes como Evander Holyfield e George
Foreman.
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| Maguila conquista o título de campeão brasileiro após nocautear Valdemar Paulino, em 1983 |
O interesse pelo boxe começou ainda em Aracaju, ao assistir
às lutas de Éder Jofre e, em especial, de Muhammad Ali. Em uma casa repleta de
irmãos, Maguila assistia às lutas do ídolo em uma TV preto e branco na casa de
um vizinho. Anos depois, se tornou campeão peso-pesado, mesma categoria de Ali.
- Eu me interessei por boxe porque eu sempre fui fã do
Muhammad Ali, do Cassius Clay. Sempre fui fã dele e disse: vou lutar boxe.
Gostava demais dele. Quando eu comecei a assistir, nem televisão tinha em casa
- disse ao ge em 2015.
| MAGUILA PUGILISTA |
Em 2013, esposa falou sobre sofrimento de Maguila com
doença: "Ele nunca imaginava"
Em 1985, no ginásio do Parque São Jorge, em São Paulo,
Maguila perdeu sua invencibilidade. O sergipano foi nocauteado pelo argentino
Daniel Falconi. O brasileiro, no entanto, conseguiu dar o troco. No ano
seguinte, no mesmo palco, ele não somente teve sua revanche, como também deu um
fim à carreira do rival.
| Maguila reencontrou Daniel Falconi em 2019 |
- Aquela luta terminou a minha carreira, porque deslocou a retina do olho direito. Para o Maguila foi um trampolim para decolar na carreira. Salvaram meu olho depois de duas cirurgias. Era muito perigoso continuar minha carreira nessa situação. Tive que decidir e parei - contou Falconi ao ge em 2019.
Maguila também conquistou o cinturão das Américas pelo
Conselho Mudnial de Boxe (WBC), em 1986, e da América Latina pela Associação
Mundial de Boxe (WBA) e pela Federação Internacional de Boxe (IBF), ambos em 1996.
CBBoxe alerta pugilistas e enaltece Maguila: "Merecia
mais do que teve"
Apesar de não ter conquistado o título por uma das quatro principais organizações mundiais de boxe, Maguila foi o primeiro brasileiro campeão mundial dos pesos-pesados. Em 1995, ele venceu Johnny Nelson, em Osasco, e conquistou o cinturão da Federação Mundial de Boxe (WBF), uma entidade considerada de segunda prateleira.
Maguila e George Foreman, em 1990 — Foto: Agência AP
No dia 15 de julho de 1989, o Brasil parou para assistir ao
duelo de Maguila com Evander Holyfield.
O brasileiro vinha de uma sequência de 18 vitórias,
incluindo o marcante triunfo por pontos sobre James "Quebra-Ossos"
Smith, em 1987, e vivia o melhor momento de sua carreira.
No primeiro round, o sergipano até levou a melhor, mas a
alegria durou pouco.
No assalto seguinte, o norte-americano conquistou uma
vitória contundente com um nocaute fulminante.
- A luta contra Maguila foi importante para mim. Ele era
número um e meu objetivo era ser o número um e forçar a luta contra Tyson. Eu
treinei para isto. Nós lutamos, eu o nocauteei, e as pessoas sentiram que eu
tinha força, assim como Tyson - disse Holyfield, em entrevista ao Esporte
Espetacular, em 2015.
Em 16 de junho de 1990, Maguila enfrentava novamente um
grande nome do boxe mundial, um ano após ser derrotado pelo então campeão
mundial Evander Holyfield. Aos 32 anos, em Las Vegas, Maguila subia ao ringue
para enfrentar George Foreman na preliminar da luta entre Mike Tyson e Henry
Tillman.
Na época, Maguila ostentava um cartel importante nos
pesos-pesados, com 36 vitórias e o 10º lugar no ranking da Associação Mundial
de Boxe (WBA). Do outro lado do ringue, Foreman, com 41 anos, lutava para poder
disputar novamente o cinturão da categoria.
A expectativa de Maguila e do povo brasileiro acabou no
segundo round, quando George Foreman nocauteou o brasileiro. Em depoimento ao
ge, em 2020, o brasileiro lembrou, cheio de bom humor, de um dos principais
duelos de sua carreira.
"Falar sobre o Foreman é pensar em cair de novo. Só em
falar dele dá vontade de cair", brincou Maguila ao relembrar a luta.
– O "véio" era uma parada dura. O que eu vou
contar são as quedas que levei, batia no "veio" e ele nem se mexia.
Ali foi problema, estou vivo e tranquilo. Se ficasse em pé ele me matava –
disse Maguila ao ge.
Em 2009, lançou o álbum "Vida de Campeão", com a
música que dá nome ao disco, de sua autoria, e a gravação de sambas
consagrados. Também realizou alguns trabalhos na TV, inclusive como
comentarista de economia.
Fã de samba, Maguila foi homenageado ao virar enredo da
escola de samba "Me Chama Que Eu Vou", no desfile virtual de 2021. A
canção "Para que nunca se esqueça, um abraço, Maguila", é de autoria
do compositor Thiago de Souza.
Um longa metragem sobre a vida de Maguila, que seria
interpretado por Babu Santana, chegou a ser divulgado em 2015. O ator iniciou o
processo de treinamentos para viver o pugilista nas telonas, mas as gravações
foram suspensas por falta de patrocínio.
A demência
pugilística
Em 2013, foi diagnosticado com encefalopatia traumática
crônica, também conhecida como demência pugilística. Trata-se de uma doença
neurodegenerativa e irreversível, causada por golpes na cabeça. Além de
Maguila, a condição acometeu outros grandes nomes do esporte, como o também
pugilista e campeão mundial Éder Jofre e o zagueiro Bellini, campeão da Copa do
Mundo de 1958 com o Brasil.
De início, os sintomas pareciam esquecimentos normais de
carteiras, chaves. Até que as situações se tornaram mais graves e perigosas,
como quando o ex-lutador saía de casa e ficava perdido, desorientado. Uma
agressividade inesperada foi surgindo, e sua esposa, Irani Pinheiro, buscou
ajuda dos especialistas.
O primeiro diagnóstico veio em 2010: Mal de Alzheimer,
doença progressiva que destrói funções cerebrais. Mas tudo começou a fazer mais
sentido três anos mais tarde, depois do segundo diagnóstico: demência
pugilística.
- Ele vem sofrendo há 18 anos, nessa luta com ele tentando
dar uma qualidade de vida melhor. A gente sempre cuidou do Maguila com muito
carinho. Agradeço a todos os brasileiros que torceram. A doença é complicada, a
gente tentou fazer o melhor. Eu casei em 1989 com o Maguila, aos 18 anos; hoje
eu tenho 58 (anos), 40 anos de casada. A gente teve momentos bons e ruins, mas
Deus sempre esteve conosco - comentou Irani.
Após consentimento da família, o ex-boxeador concordou, em
2018, em doar o cérebro para pesquisa após sua morte. Será um movimento
semelhante ao feito pela família de Bellini. O órgão será objeto de estudo na
Universidade de São Paulo. Uma equipe da instituição analisa as consequências
de impactos repetidos na cabeça nos esportes, como futebol, boxe e rúgbi, entre
outros. O aprofundamento é tido como fundamental para desenvolver medidas de
prevenção.
Nos últimos anos de vida, passou a morar no Centro
Terapêutico Anjos de Deus, clínica em Itu, no interior paulista. Vivia uma
rotina regrada que incluía fisioterapia e muita conversa, além de vídeos e
lembranças de lutas antigas.
- Quero mandar um abraço para todos os meus fãs do Brasil.
Um abraço grande para eles - disse Maguila, em uma de suas últimas entrevistas
ao ge.
Maguila, lenda do boxe brasileiro, morre aos 66 anos.
Ex-peso-pesado sofria de demência pugilística, consequência
das pancadas na cabeça que sofreu ao longo dos 17 anos de carreira; Adilson conquistou
títulos brasileiros, Sul-Americanos e o Mundial da WBF.
O Brasil se despede de um dos maiores boxeadores de sua
história. José Adilson Rodrigues dos Santos, mais conhecido como Maguila,
morreu nesta quinta-feira, dia 24 de outubro de 2024, em São Paulo, aos 66
anos. O principal peso-pesado e uma das direitas mais pesadas do boxe
brasileiro sofria de encefalopatia traumática crônica, também conhecida como
demência pugilística, diagnosticada em 2013.
- Ele tava, ficou 28 dias internado, e a gente procurou não
falar com a imprensa, porque eu procurei cuidar da minha família. É o momento
de cada um. O Maguila estava há 18 anos com encefalopatia traumática crônica...
Há 30 dias, foi descoberto um nódulo no pulmão, ele sentiu muitas dores no
abdômen, tiraram dois litros de água do pulmão, não conseguimos fazer a biópsia
- relatou Irani.
Maguila nasceu no dia 11 de julho de 1958, em Aracaju. Dos
17 anos em que lutou, acumulou um cartel de 85 lutas, 77 vitórias (61 por
nocaute), sete derrotas e um empate técnico. Com seu jeito carismático e suas
entrevistas folclóricas, foi cativando o público. Entre as lutas mais especiais
da carreira, estão os confrontos com nomes como Evander Holyfield e George
Foreman.
O interesse pelo boxe começou ainda em Aracaju, ao assistir
às lutas de Éder Jofre e, em especial, de Muhammad Ali. Em uma casa repleta de
irmãos, Maguila assistia às lutas do ídolo em uma TV preto e branco na casa de
um vizinho. Anos depois, se tornou campeão peso-pesado, mesma categoria de Ali.
- Eu me interessei por boxe porque eu sempre fui fã do
Muhammad Ali, do Cassius Clay. Sempre fui fã dele e disse: vou lutar boxe.
Gostava demais dele. Quando eu comecei a assistir, nem televisão tinha em casa
- disse ao ge em 2015.
Em 2013, esposa falou sobre sofrimento de Maguila com
doença: "Ele nunca imaginava"
Em 1985, no ginásio do Parque São Jorge, em São Paulo,
Maguila perdeu sua invencibilidade. O sergipano foi nocauteado pelo argentino
Daniel Falconi. O brasileiro, no entanto, conseguiu dar o troco. No ano seguinte,
no mesmo palco, ele não somente teve sua revanche, como também deu um fim à
carreira do rival.
- Aquela luta terminou a minha carreira, porque deslocou a
retina do olho direito. Para o Maguila foi um trampolim para decolar na
carreira. Salvaram meu olho depois de duas cirurgias. Era muito perigoso
continuar minha carreira nessa situação. Tive que decidir e parei - contou
Falconi ao ge em 2019.
Maguila também conquistou o cinturão das Américas pelo
Conselho Mudnial de Boxe (WBC), em 1986, e da América Latina pela Associação
Mundial de Boxe (WBA) e pela Federação Internacional de Boxe (IBF), ambos em
1996.
CBBoxe alerta pugilistas e enaltece Maguila: "Merecia
mais do que teve"
Apesar de não ter conquistado o título por uma das quatro
principais organizações mundiais de boxe, Maguila foi o primeiro brasileiro
campeão mundial dos pesos-pesados. Em 1995, ele venceu Johnny Nelson, em
Osasco, e conquistou o cinturão da Federação Mundial de Boxe (WBF), uma
entidade considerada de segunda prateleira.
No dia 15 de julho de 1989, o Brasil parou para assistir ao
duelo de Maguila com Evander Holyfield.
O brasileiro vinha de uma sequência de 18 vitórias,
incluindo o marcante triunfo por pontos sobre James "Quebra-Ossos"
Smith, em 1987, e vivia o melhor momento de sua carreira.
No primeiro round, o sergipano até levou a melhor, mas a
alegria durou pouco.
No assalto seguinte, o norte-americano conquistou uma
vitória contundente com um nocaute fulminante.
- A luta contra Maguila foi importante para mim. Ele era
número um e meu objetivo era ser o número um e forçar a luta contra Tyson. Eu
treinei para isto. Nós lutamos, eu o nocauteei, e as pessoas sentiram que eu
tinha força, assim como Tyson - disse Holyfield, em entrevista ao Esporte
Espetacular, em 2015.
Em 16 de junho de 1990, Maguila enfrentava novamente um
grande nome do boxe mundial, um ano após ser derrotado pelo então campeão
mundial Evander Holyfield. Aos 32 anos, em Las Vegas, Maguila subia ao ringue
para enfrentar George Foreman na preliminar da luta entre Mike Tyson e Henry
Tillman.
Na época, Maguila ostentava um cartel importante nos
pesos-pesados, com 36 vitórias e o 10º lugar no ranking da Associação Mundial
de Boxe (WBA). Do outro lado do ringue, Foreman, com 41 anos, lutava para poder
disputar novamente o cinturão da categoria.
A expectativa de Maguila e do povo brasileiro acabou no
segundo round, quando George Foreman nocauteou o brasileiro. Em depoimento ao
ge, em 2020, o brasileiro lembrou, cheio de bom humor, de um dos principais
duelos de sua carreira.
"Falar sobre o Foreman é pensar em cair de novo. Só em
falar dele dá vontade de cair", brincou Maguila ao relembrar a luta.
– O "véio" era uma parada dura. O que eu vou
contar são as quedas que levei, batia no "veio" e ele nem se mexia.
Ali foi problema, estou vivo e tranquilo. Se ficasse em pé ele me matava –
disse Maguila ao ge.
Em 2009, lançou o álbum "Vida de Campeão", com a
música que dá nome ao disco, de sua autoria, e a gravação de sambas
consagrados. Também realizou alguns trabalhos na TV, inclusive como
comentarista de economia.
Fã de samba, Maguila foi homenageado ao virar enredo da
escola de samba "Me Chama Que Eu Vou", no desfile virtual de 2021. A
canção "Para que nunca se esqueça, um abraço, Maguila", é de autoria
do compositor Thiago de Souza.
Um longa metragem sobre a vida de Maguila, que seria
interpretado por Babu Santana, chegou a ser divulgado em 2015. O ator iniciou o
processo de treinamentos para viver o pugilista nas telonas, mas as gravações
foram suspensas por falta de patrocínio.
A demência pugilística
Em 2013, foi diagnosticado com encefalopatia traumática
crônica, também conhecida como demência pugilística. Trata-se de uma doença
neurodegenerativa e irreversível, causada por golpes na cabeça. Além de
Maguila, a condição acometeu outros grandes nomes do esporte, como o também
pugilista e campeão mundial Éder Jofre e o zagueiro Bellini, campeão da Copa do
Mundo de 1958 com o Brasil.
De início, os sintomas pareciam esquecimentos normais de
carteiras, chaves. Até que as situações se tornaram mais graves e perigosas,
como quando o ex-lutador saía de casa e ficava perdido, desorientado. Uma
agressividade inesperada foi surgindo, e sua esposa, Irani Pinheiro, buscou
ajuda dos especialistas.
O primeiro diagnóstico veio em 2010: Mal de Alzheimer,
doença progressiva que destrói funções cerebrais. Mas tudo começou a fazer mais
sentido três anos mais tarde, depois do segundo diagnóstico: demência
pugilística.
- Ele vem sofrendo há 18 anos, nessa luta com ele tentando
dar uma qualidade de vida melhor. A gente sempre cuidou do Maguila com muito
carinho. Agradeço a todos os brasileiros que torceram. A doença é complicada, a
gente tentou fazer o melhor. Eu casei em 1989 com o Maguila, aos 18 anos; hoje
eu tenho 58 (anos), 40 anos de casada. A gente teve momentos bons e ruins, mas
Deus sempre esteve conosco - comentou Irani.
Após consentimento da família, o ex-boxeador concordou, em
2018, em doar o cérebro para pesquisa após sua morte. Será um movimento
semelhante ao feito pela família de Bellini. O órgão será objeto de estudo na
Universidade de São Paulo. Uma equipe da instituição analisa as consequências
de impactos repetidos na cabeça nos esportes, como futebol, boxe e rúgbi, entre
outros. O aprofundamento é tido como fundamental para desenvolver medidas de
prevenção.
Nos últimos anos de vida, passou a morar no Centro
Terapêutico Anjos de Deus, clínica em Itu, no interior paulista. Vivia uma
rotina regrada que incluía fisioterapia e muita conversa, além de vídeos e
lembranças de lutas antigas.
- Quero mandar um abraço para todos os meus fãs do Brasil.
Um abraço grande para eles - disse Maguila, em uma de suas últimas entrevistas
ao ge.
Maguila, lenda do boxe brasileiro, morre aos 66 anos.
Ex-peso-pesado sofria de demência pugilística, consequência
das pancadas na cabeça que sofreu ao longo dos 17 anos de carreira; Adilson
conquistou títulos brasileiros, Sul-Americanos e o Mundial da WBF.
O Brasil se despede de um dos maiores boxeadores de sua
história. José Adilson Rodrigues dos Santos, mais conhecido como Maguila,
morreu nesta quinta-feira, dia 24 de outubro de 2024, em São Paulo, aos 66
anos. O principal peso-pesado e uma das direitas mais pesadas do boxe
brasileiro sofria de encefalopatia traumática crônica, também conhecida como
demência pugilística, diagnosticada em 2013.
- Ele tava, ficou 28 dias internado, e a gente procurou não
falar com a imprensa, porque eu procurei cuidar da minha família. É o momento
de cada um. O Maguila estava há 18 anos com encefalopatia traumática crônica...
Há 30 dias, foi descoberto um nódulo no pulmão, ele sentiu muitas dores no
abdômen, tiraram dois litros de água do pulmão, não conseguimos fazer a biópsia
- relatou Irani.
Maguila nasceu no dia 11 de julho de 1958, em Aracaju. Dos
17 anos em que lutou, acumulou um cartel de 85 lutas, 77 vitórias (61 por
nocaute), sete derrotas e um empate técnico. Com seu jeito carismático e suas
entrevistas folclóricas, foi cativando o público. Entre as lutas mais especiais
da carreira, estão os confrontos com nomes como Evander Holyfield e George
Foreman.
O interesse pelo boxe começou ainda em Aracaju, ao assistir
às lutas de Éder Jofre e, em especial, de Muhammad Ali. Em uma casa repleta de
irmãos, Maguila assistia às lutas do ídolo em uma TV preto e branco na casa de
um vizinho. Anos depois, se tornou campeão peso-pesado, mesma categoria de Ali.
- Eu me interessei por boxe porque eu sempre fui fã do
Muhammad Ali, do Cassius Clay. Sempre fui fã dele e disse: vou lutar boxe.
Gostava demais dele. Quando eu comecei a assistir, nem televisão tinha em casa
- disse ao ge em 2015.
Em 2013, esposa falou sobre sofrimento de Maguila com
doença: "Ele nunca imaginava"
Em 1985, no ginásio do Parque São Jorge, em São Paulo,
Maguila perdeu sua invencibilidade. O sergipano foi nocauteado pelo argentino
Daniel Falconi. O brasileiro, no entanto, conseguiu dar o troco. No ano
seguinte, no mesmo palco, ele não somente teve sua revanche, como também deu um
fim à carreira do rival.
- Aquela luta terminou a minha carreira, porque deslocou a
retina do olho direito. Para o Maguila foi um trampolim para decolar na
carreira. Salvaram meu olho depois de duas cirurgias. Era muito perigoso
continuar minha carreira nessa situação. Tive que decidir e parei - contou
Falconi ao ge em 2019.
Maguila também conquistou o cinturão das Américas pelo
Conselho Mudnial de Boxe (WBC), em 1986, e da América Latina pela Associação
Mundial de Boxe (WBA) e pela Federação Internacional de Boxe (IBF), ambos em
1996.
CBBoxe alerta pugilistas e enaltece Maguila: "Merecia
mais do que teve"
Apesar de não ter conquistado o título por uma das quatro
principais organizações mundiais de boxe, Maguila foi o primeiro brasileiro
campeão mundial dos pesos-pesados. Em 1995, ele venceu Johnny Nelson, em
Osasco, e conquistou o cinturão da Federação Mundial de Boxe (WBF), uma
entidade considerada de segunda prateleira.
No dia 15 de julho de 1989, o Brasil parou para assistir ao
duelo de Maguila com Evander Holyfield.
O brasileiro vinha de uma sequência de 18 vitórias,
incluindo o marcante triunfo por pontos sobre James "Quebra-Ossos"
Smith, em 1987, e vivia o melhor momento de sua carreira.
No primeiro round, o sergipano até levou a melhor, mas a
alegria durou pouco.
No assalto seguinte, o norte-americano conquistou uma
vitória contundente com um nocaute fulminante.
- A luta contra Maguila foi importante para mim. Ele era
número um e meu objetivo era ser o número um e forçar a luta contra Tyson. Eu
treinei para isto. Nós lutamos, eu o nocauteei, e as pessoas sentiram que eu
tinha força, assim como Tyson - disse Holyfield, em entrevista ao Esporte
Espetacular, em 2015.
Em 16 de junho de 1990, Maguila enfrentava novamente um
grande nome do boxe mundial, um ano após ser derrotado pelo então campeão mundial
Evander Holyfield. Aos 32 anos, em Las Vegas, Maguila subia ao ringue para
enfrentar George Foreman na preliminar da luta entre Mike Tyson e Henry
Tillman.
Na época, Maguila ostentava um cartel importante nos
pesos-pesados, com 36 vitórias e o 10º lugar no ranking da Associação Mundial
de Boxe (WBA). Do outro lado do ringue, Foreman, com 41 anos, lutava para poder
disputar novamente o cinturão da categoria.
A expectativa de Maguila e do povo brasileiro acabou no
segundo round, quando George Foreman nocauteou o brasileiro. Em depoimento ao
ge, em 2020, o brasileiro lembrou, cheio de bom humor, de um dos principais
duelos de sua carreira.
"Falar sobre o Foreman é pensar em cair de novo. Só em
falar dele dá vontade de cair", brincou Maguila ao relembrar a luta.
– O "véio" era uma parada dura. O que eu vou
contar são as quedas que levei, batia no "veio" e ele nem se mexia.
Ali foi problema, estou vivo e tranquilo. Se ficasse em pé ele me matava –
disse Maguila ao ge.
Em 2009, lançou o álbum "Vida de Campeão", com a
música que dá nome ao disco, de sua autoria, e a gravação de sambas
consagrados. Também realizou alguns trabalhos na TV, inclusive como
comentarista de economia.
Fã de samba, Maguila foi homenageado ao virar enredo da
escola de samba "Me Chama Que Eu Vou", no desfile virtual de 2021. A
canção "Para que nunca se esqueça, um abraço, Maguila", é de autoria
do compositor Thiago de Souza.
Um longa metragem sobre a vida de Maguila, que seria
interpretado por Babu Santana, chegou a ser divulgado em 2015. O ator iniciou o
processo de treinamentos para viver o pugilista nas telonas, mas as gravações
foram suspensas por falta de patrocínio.
A demência pugilística
Em 2013, foi diagnosticado com encefalopatia traumática
crônica, também conhecida como demência pugilística. Trata-se de uma doença
neurodegenerativa e irreversível, causada por golpes na cabeça. Além de
Maguila, a condição acometeu outros grandes nomes do esporte, como o também
pugilista e campeão mundial Éder Jofre e o zagueiro Bellini, campeão da Copa do
Mundo de 1958 com o Brasil.
De início, os sintomas pareciam esquecimentos normais de
carteiras, chaves. Até que as situações se tornaram mais graves e perigosas,
como quando o ex-lutador saía de casa e ficava perdido, desorientado. Uma
agressividade inesperada foi surgindo, e sua esposa, Irani Pinheiro, buscou
ajuda dos especialistas.
O primeiro diagnóstico veio em 2010: Mal de Alzheimer,
doença progressiva que destrói funções cerebrais. Mas tudo começou a fazer mais
sentido três anos mais tarde, depois do segundo diagnóstico: demência
pugilística.
- Ele vem sofrendo há 18 anos, nessa luta com ele tentando
dar uma qualidade de vida melhor. A gente sempre cuidou do Maguila com muito
carinho. Agradeço a todos os brasileiros que torceram. A doença é complicada, a
gente tentou fazer o melhor. Eu casei em 1989 com o Maguila, aos 18 anos; hoje
eu tenho 58 (anos), 40 anos de casada. A gente teve momentos bons e ruins, mas
Deus sempre esteve conosco - comentou Irani.
Após consentimento da família, o ex-boxeador concordou, em
2018, em doar o cérebro para pesquisa após sua morte. Será um movimento
semelhante ao feito pela família de Bellini. O órgão será objeto de estudo na
Universidade de São Paulo. Uma equipe da instituição analisa as consequências
de impactos repetidos na cabeça nos esportes, como futebol, boxe e rúgbi, entre
outros. O aprofundamento é tido como fundamental para desenvolver medidas de
prevenção.
Nos últimos anos de vida, passou a morar no Centro
Terapêutico Anjos de Deus, clínica em Itu, no interior paulista. Vivia uma
rotina regrada que incluía fisioterapia e muita conversa, além de vídeos e
lembranças de lutas antigas.
- Quero mandar um abraço para todos os meus fãs do Brasil.
Um abraço grande para eles - disse Maguila, em uma de suas últimas entrevistas
ao ge.
POSTADO POR:RANIERI BOTELHO
FONTE:G1





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